A ética, a moral e as características pessoais influenciam a construção do que podemos chamar de Parâmetro do Aceitável na vida em sociedade. Todos nós temos impulso de vez ou outra soltar nossas verdades – que nem sempre corresponde à Verdade (aquela irrevogável) – em relação a um tema específico, a uma pessoa, a um assunto.
Por exemplo, quando vemos nos telejornais que mais um deputado foi pego por uma câmera escondida recebendo propina, temos o ímpeto de – mesmo em frente à televisão – xingar sua mãe, mas sabemos que a mãe não é necessariamente a responsável pela canalhice do filho. Outro exemplo, quando somos parados numa blitz policial e o guarda anuncia que só nos deixará prosseguir se “rolar algum”, ou seja, com o pagamento de propina, podemos nos sentir ofendidos enquanto cidadãos e, pelo ímpeto, pelo impensado, podemos sair do carro e dar um soco na cara do policial, mas sabemos que ao fazer isso, seriamos presos.
Pois bem, o que quero dizer é que há um limite, construído por nós, enquanto sociedade. É como quando levamos nosso filho pequeno à praia e mostramos pra ele um limite de altura das águas – digamos, até o joelho – e dizemos: você pode vir até aqui – apontando os pontos dos limites permitidos. Depois de um tempo, ele pode querer ver como é deixar a água passar um pouquinho – digamos, um, dois dedos – do joelho. Ou seja, ele começa a testar os limites.
Na nossa sociedade fazemos o papel de pai, mas também o papel do filho. Contribuímos para a criação de limites que nós mesmos teremos que respeitar. Muitos, porém, fazem de forma muito mais contundente as vezes do filho travesso, querendo ver como é deixar a água passar um pouco do joelho. Pena que alguns, de tão travessos, vão tão fundo que se afogam.
O humorista é, por definição, o menino travesso. A ele a sociedade diz: você pode ir daqui, até aqui – apontando para os limites permitidos, da mesma forma como fazemos com a criança. Como exemplo, notamos que a sociedade atual aceita piadas de loiras (embora ainda sob protestos), piadas de português, de religiosos, de políticos, de gordinhos, mas não aceita (ainda) piadas de racismo exagerado (porque o soft-racismo já é aceito, infelizmente), de Alah (lembram das charges do profeta no jornal dinamarquês que causaram um acidente diplomático?) e, no recente caso ocorrido em nosso país, que aludam à pedofilia - possívelmente por ser um problema tão grave, bárbaro e presente no mundo pós-moderno.
Agora, sinto que preciso explicar o que quero dizer com “a sociedade não aceita (ainda)”. Digo isto porque, graças às ações desses meninos travessos e de outros fatores sócio-culturais, nossos limites vão sendo modificados, afrouxados. É como se o pai notasse que seu filho está crescendo e por isso começa a deixar que ele vá um pouco mais ao fundo no mar (muito embora o crescimento do filho não implique, necessariamente, que ele saiba nadar).
Alguns temas que antes eram inaceitáveis – por exemplo, piadas sobre o Onze de Setembro –, hoje já começam a seres ditas, e a sociedade ao ouvir já se machuca cada vez menos com elas. É claro que o desbravador destas fronteiras acaba sendo um herói (e não estou idolatrando essas pessoas, mas apenas reconhecendo o inegável ato de coragem). O primeiro que conta uma piada sobre um assunto que até então é considerado tabu, corre o risco de ser degolado, como no caso do Rafinha Bastos e a piada feita com a cantora Wanessa (se não viu, clique aqui).
Perceba que não estou defendendo o Rafinha. Acredito que assim como você, achei a piada de extremo mau gosto, mas não posso deixar de reconhecer que ele, enquanto comediante, estava apenas fazendo seu papel, a saber, testar os limites sociais.
Se os comediantes deixarem de testar os limites da sociedade, pra onde iremos? Estaríamos fadados ao estoicismo, à rigidez, à imutabilidade.
Um documentário americano exemplifica muito bem essa questão que aponto. “Os Aristocratas” mostra diversos comediantes famosos contanto a mesma piada (a do nome do documentário), de diversas formas. Não importa muito, neste caso, o humor da piada (embora isso pareça ser uma contradição). Ela não tem a punch line, ou seja, aquela palavra ou frase de dá graça a todo o resto. 'Os aristocratas' (a piada) serve para chocar, e apenas isso. Sua parte mais importante é o quanto de absurdo, bizarrice e nojeira escatológica o humorista conseguirá colocar no meio da piada – e acreditem, eles ultrapassam qualquer limite conhecido. À medida que cada humorista faz sua parte, percebemos de fato, que não há graça nenhuma, ela serve apenas para testar os limites sociais, o Parâmetro do Aceitável, ver até onde o ser humano permite-se ofender e zombar - e no caso dessa piada específica, o ideal é que o humorista ultrapasse o limite, o Parâmetro, ou seja, ofenda verdadeiramente alguém ou algum grupo específico (o que eles, evidentemente, sempre conseguem fazer).
Por mais odioso que seja, esse é o papel do humorista. Por mais desagradável que seja, esse é o papel de algumas piadas. Com Rafinha Bastos vimos que aquele limite – o da alusão á pedofilia – (ainda) não está pronto pra ser afrouxado, (ainda) não pode ser usado como zombaria, (ainda) não tem graça nenhuma. Não podemos negar, porém, que ele cumpriu seu papel de anárquico humorista, forçando os limites para ver se eles eram flexíveis (e neste caso, não eram).
Serve de lição, para ele e para toda uma classe que, embora assustadoramente ofensiva em alguns momentos, é necessária pra nossa existência enquanto sociedade.
Posted by Volcof