Mostra John Cassavetes
Existem coisas que só faço pelo Cinema. Pegar ônibus, trem, metrô, caminhar vinte minutos descendo a Sena Madureira, ficar seis horas numa sala escura com dezenas de desconhecidos, sair da sessão às 23h30, caminhar mais vinte minutos (agora subindo), pegar metrô, trem, perder o último ônibus e ter que andar da estação até minha casa, pelos tortuosos caminhos da periferia na mais alta noite é uma dessas coisas. É uma obsessão, e certamente também uma paixão, mas tem suas recompensas.
Uma delas foi a fabulosa Mostra John Cassavetes da Cinemateca Brasileira, que entre os dias 15 e 20 de maio exibiu a quatro reais o ingresso, cinco longas do pioneiro diretor do Cinema independente nos EUA. Com Sombras (1959), Faces (1968), Uma Mulher Sobre Influencia (1974), A Morte do Bookie Chinês (1976) e Noite de Estreia (1977) (trailers linkados nos títulos), tivemos a rara oportunidade – e pra mim, até então inédita – de cruzar a filmografia de um complexo artista.
O charmoso Cassavetes apareceu em minha vida a poucos meses quando revi O Bebê de Rosemary (1968), onde ele interpreta o marido da protagonista. Não sabia, contudo, que ele havia feito de sua carreira de ator um meio para financiar suas obras como realizador. Felizmente por isso, não ficamos sem seus filmes só porque eles não eram comerciais e assim, ajudado por amigos e por um público fiel, Cassavetes pode construir uma expressiva carreira como diretor, que não pode ser esquecida pelos atuais fãs do Cinema de qualidade.
Por motivos de horário, pude assistir a três dos cinco filmes, e logo notei alguns lugares comuns e preferências do diretor. Suas tramas são regadas por incontáveis cigarros e drinks e focam a relação destrutiva entre os seres humanos, especialmente nas relações amorosas. Suas cenas têm viradas sensacionais, com choros histéricos brotando onde antes havia riso e brigas começando em meio à serenidade. Outro ponto importante, que merece mais detalhamento, é a presença constante de sua mulher, Gena Rowlands, em papéis de destaque.
Assistindo Diário de uma Paixão (2004) é difícil imaginar que a frágil senhora dominada pelo Alzheimer um dia foi uma vigorosa, ousada e sexy atriz de complexos papéis. John Cassavetes era conhecido pela liberdade que dava aos profissionais, e essa arriscada decisão nos proporcionou tremendas interpretações, especialmente de sua esposa.
Em Faces, Gena encarna uma contida garota de programa obrigada a se ver sempre nos braços de velhos beberrões. No final do filme, em sua grande cena, cantarola pela casa, mas nós (e apenas nós) vemos lágrimas escorrendo de sua face. Num desespero-melancólico, ela parece cantar apenas para disfarçar de seu acompanhante (um igualmente fabuloso John Marley, indicado ao Oscar por esse papel) a irremediável melancolia de ser um brinquedo nas mãos de repugnantes homens em crise de meia-idade.
Já A Mulher Sobre Influência faz Gena atingir um nível totalmente novo de interpretação. Num fabuloso jogo de cena com o incrível, explosivo e irremediavelmente estrábico Peter Falk, ela faz Mabel, que caminha a passos largos à loucura, enquanto seu marido Nick (Peter), tenta tirá-la desse abismo, mesmo que seja à base dos bofetões. Gena faz aqui uma das raras interpretações de doentes mentais que não resulta num personagem abobalhado, mas sim realista. A cena em que Mabel faz um espaguete aos amigos de Nick é uma das melhores que já vi. Desde que os personagens sentam-se à mesa, sabemos que tudo pode acontecer e que a qualquer momento Mabel pode perder o controle. Ficamos tensos por isso, mesmo que em cena haja apenas uma conversa descontraída.
Em Noite de Estreia, Gena é a autodestrutiva Myrtle, que com sua loucura (uma loucura completamente diferente da de Mabel), deixa louco todos os que trabalham com ela numa peça de teatro, especialmente o diretor Manny (um canastríssimo Ben Gazzara). Constantemente bêbada, fumando seguidos cigarros, mas ainda assim exuberante, sexy e arrebatadoramente linda.
Gena foi indicada duas vezes ao Oscar e Cassavetes a três, sem vitórias, mas isso não importa. Tiveram três filhos, um deles Nick Cassavetes, diretor de Diário de uma Paixão e sem uma sombra do vigor do pai. John morreu em 1989, de cirrose hepática e Gena continua trabalhando. E o mais importante: a primorosa arte que fizeram juntos continua viva e atual, numa das melhores parcerias da história do Cinema.
Posted by @Volcof







